Opinião


Crianças e adolescentes

Em Belém, projeto usa arte para criar ponte entre comunidade e Estado

Ação do Cineclube Terra Firme mostra que periferia é produtora de cultura

Crianças e adolescentes

Em Belém, projeto usa arte para criar ponte entre comunidade e Estado

Ação do Cineclube Terra Firme mostra que periferia é produtora de cultura

Escrito em 28 de Dezembro 2021 por
Lilia Melo

O Residencial Liberdade, na periferia de Belém, no Pará, é formado por três grandes prédios que, juntos abrigam cerca de 600 famílias. São três construções originalmente destinadas ao programa Minha Casa Minha Vida, mas que ficaram inacabadas — e foram ocupadas pela comunidade. Para as autoridades públicas, trata-se de um não-lugar: uma parte da cidade que o poder público finge que ignora. Por lá, quando a polícia aparece, é para promover ações violentas ou despejos. 

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Moro e leciono no mesmo bairro do Residencial  Liberdade, no bairro Terra Firme. Eu e meus alunos criamos um projeto que, por meio da arte, discute racismo e violência policial, o Cine Club Terra Firme. Com ele, buscamos combater os estereótipos negativos que pesam contra a juventude periférica. Desde que nasceu, o Cine Club Terra Firme mantém uma relação próxima com a comunidade, inclusive com os moradores do Residencial Liberdade, já que alguns dos alunos que coordenam grupos de trabalho no projeto vivem lá. Um dos saraus que promovemos, o Sarau da Beira, acontece na orla do rio Tucunduba, bem próximo ao conjunto habitacional. Em alusão à Semana da Consciência Negra, novembro passado, com a parceria do Ministério Público do Estado do Pará e a Secretaria de Cultura do Estado do Pará, decidimos transformar um dos pátios do Liberdade em palco de uma de nossas intervenções: o sarau “Nós existimos!”. Com ele, queríamos mostrar ao Estado que a juventude que vive naquele lugar interditado é fazedora de arte. O Liberdade, a despeito da negligência das autoridades, é um lugar de cultura. 

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Essa história começou com um telefone inesperado. Antes, um parênteses: para quem vive na periferia, em lugares estigmatizados, a relação com a justiça e o Estado é, geralmente, acompanhada por sobressaltos. A impressão que se tem é de que aquilo que deveria nos proteger — a polícia, o Ministério Público — na verdade existe para nos criminalizar ou punir. Por isso quando, no início de novembro, uma das promotoras do MP do Pará me telefonou, minha primeira reação foi de preocupação. O que uma promotora de justiça queria comigo? Será que fiz algo de errado? Não deveria ser coisa boa, pensei… Mas era! 


Mesmo sob chuva, as crianças acompanharam encantadas a exibição dos filmes (Foto: Cineclube Terra Firme)

Quem me procurou foi a Promotora de Justiça da Infância e Juventude, Viviane Veras Couto. Ela e a promotora Mônica Freire tinham conhecido as ações do cine Clube Terra Firme pelas redes sociais e queriam propor uma ação conjunta para a construção da VII Semana da Criança e do Adolescente. Fiquei bastante animada, pois entendo a importância de estabelecer esse tipo de diálogo. Construimos juntes a programação cultural do evento, intitulado “O Reflexo da Pandemia na população Infantojuvenil” que ocorre anualmente.

Tudo isso aconteceu no início de novembro. Como Cine Clube TF, participamos de palestras e exibimos vídeos produzidos pelos integrantes do projeto. Tradicionalmente, o MP aproveita a Semana da Infância e da Juventude para arrecadar cestas básicas e distribuí-las a instituições de caridade. Neste ano, pela primeira vez, foi entregue diretamente à comunidade, a distribuição aconteceu na sede do Cine Clube TF (também conhecida como a garagem da minha casa). Arrecadamos 400 cestas básicas. Percebi que seria significativo que parte da distribuição acontecesse dentro do Residencial Liberdade. As promotoras concordaram. 

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Programamos a ação para acontecer no dia 15 de novembro, em pleno feriado, ou seja, o corpo humano era voluntariado mesmo. Não queríamos apenas distribuir as cestas básicas. A vontade era realizar um evento artístico-cultural, já que na pandemia confirmamos a ideia de que uma cesta básica não deve se limitar a nutrir somente o corpo, ela tem que ter alimento também emocional e mental. O Sarau “Nós Existimos” surgiu desse desejo. 

A Secretaria de Cultura (Secult/PA) ofereceu o palco e os equipamentos de som. A Universidade Federal do Pará, através do grupo de pesquisa VISAGEM,  nos cedeu uma tela de cinema, inflável e gigante, que instalamos na quadra esportiva do primeiro bloco do Liberdade. Não há energia elétrica no conjunto residencial. Ali, no meio do breu, aquela tela gigantesca iluminada parecia flutuar. Cerca de 400 crianças e 300 adultos assistiram aos filmes e às apresentações de música, de poesia afro e indígena, de teatro, entre outras. 

As crianças ficaram fascinadas. Muitas nunca tinham ido ao cinema. Exibimos produções do Cine Clube Terra Firme, gravadas na região. Elas trazem o pulsar do bairro… Quem assistiu, viu sua própria rua projetada no telão. Foi muito especial. Quando começou a chover, as pessoas buscaram guarda-chuvas, para continuar a acompanhar os filmes mesmo embaixo d’água. 


A professora Lília Melo durante ação cultural no Residencial Liberdade, em Belém (Foto: Cineclube Terra Firme)

Na ocasião, as promotoras de justiça palestraram sobre a atuação do Ministério Público. Queríamos construir esse tipo de troca. Aqui, cabe uma reflexão importante. As leis e os mecanismos que, ao menos teoricamente, deveriam proteger a população, são pensadas e discutidas por pessoas que, muito frequentemente, não conhecem a vida nas comunidades que serão beneficiadas. A distância e a falta de escuta, muitas vezes fazem com que as minhas necessidades, e as necessidades dos meus, não sejam contempladas. É importante fazer o Estado nos ouvir. Durante o evento no Residencial Liberdade, era essa a nossa intenção. Ali, queríamos ainda que a comunidade conhecesse a atuação do Ministério Público, para procurá-lo se necessário. As promotoras de justiça, juntamente com sua equipe, desconstruíram a ideia que tínhamos de um Ministério Público indiferente, duro e punitivo. Conhecemos um lado humano dessa instituição.   

A repercussão do sarau foi imensa. O nome escolhido, Nós Existimos, foi uma sugestão minha. A ideia é fortalecer a mensagem de que o Estado deveria olhar pelo Residencial Liberdade. Deveria oferecer educação, lazer e cultura. Se não oferece, nós oferecemos, porque na periferia é “Nós por Nós!”. Nós existimos e vamos continuar aqui, fazendo o que sabemos fazer de melhor: produzir arte coletivamente.  
 

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