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Justiça criminal

Em oficina de Justiça Restaurativa, mulheres compartilham relatos do cárcere

Curso, realizado pela Pastoral Carcerária Nacional, reúne familiares de presos e sobreviventes do sistema prisional

Justiça criminal

Em oficina de Justiça Restaurativa, mulheres compartilham relatos do cárcere

Curso, realizado pela Pastoral Carcerária Nacional, reúne familiares de presos e sobreviventes do sistema prisional

por Pastoral Carcerária Nacional 

O irmão de S.* acabara de sair do trabalho, despreocupado, quando, na rua, alguém gritou: “é aquele negrinho ali, de camisa vermelha”. O ano era 1982 e, conforme S. conta, o rapaz foi mandado para cadeia mesmo sem ter praticado crime algum. Visitá-lo era um martírio. “Quem visita um familiar  preso tem o sofrimento do lado de fora. A gente passa por uma revista muito pesada. Eu não bebo, não uso drogas, mas eu acho que por causa do meu jeito, da minha forma de vestir, e por causa da minha cor, sempre me apontavam:  “ah, você tem alguma coisa”, “você tá carregando alguma coisa”’ lembra S.

M, por sua vez, sobreviveu ao cárcere. Atrás das grades, se sentia desamparada. Junto de outras egressas, fundou um coletivo destinado a apoiar outras mulheres que, como ela, precisavam de suporte ao deixar a prisão. Foi esse o caso de L. Antes de ser presa, L. vivia nas ruas.  “Achei que teria que voltar a morar na rua”,conta. Não voltou: com ajuda do coletivo Por Nós — o grupo fundado por M. —  e da Pastoral Carcerária, L tem acesso a suporte financeiro e a cursos.

As histórias de S., M. e L. estão entre as muitas compartilhadas durante a oficina de Justiça Restaurativa promovida pela Pastoral Carcerária Nacional no final de novembro. O curso, feito em parceria com o coletivo Libertas, era voltado especialmente para as sobreviventes do cárcere. Nove mulheres, egressas do sistema prisional e familiares de presos, participaram das rodas de discussão que duraram uma semana. Além de partilhar histórias de vida, as participantes debateram questões como a comunicação não violenta e o perdão.

Confira abaixo algumas dessas histórias, que as mulheres participantes contaram ao site da PCr. Os nomes serão mantidos em anonimato:


N.
Conheci a Pastoral na prisão, e o trabalho que era realizado me interessou. Comecei a trazer as meninas e a gente foi se aproximando. Começou pequeno, com umas 10, depois tinha 20, 50, 100, e ali elas começaram a fazer algumas atividades com a gente, e foi assim que eu comecei a pensar num trabalho.

A Pastoral me acolheu: tive um filho de 17 anos com tumor, estava internado entre a vida e a morte, e ele faleceu. Meu medo era de que ele morresse e  seria enterrado sem eu saber, mas a Pastoral me ajudou a visitar ele. É difícil uma pessoa sair da prisão e ir visitar o filho no hospital, tinha gente com mais condições que eu que não conseguia. Eu não sei como fizeram, mas eu visitava ele duas vezes por semana. 

Eu falei pra Geralda (agente da PCr e uma das coordenadoras do coletivo Libertas) um dia: “e quando eu sair daqui? Que opção vou ter? Olha como eu sou, meu jeito, quem é que vai apoiar a gente?” e ela respondeu que aqui fora tem pessoas que poderiam nos apoiar. E ela falou: “quem sabe um dia a gente pode abrir uma cooperativa, ou algo do tipo”, e quando eu saí, ela bateu na minha porta, e aí eu fui pra cooperativa, comecei a levar algumas companheiras, e deu certo. Estamos aí há dois anos na luta, e é uma coisa linda. 

E a minha família também tá toda dentro da cooperativa, a gente participa de tudo, e falamos sempre pras crianças da comunidade que essas mulheres da Pastoral são futuro, que é para elas ficarem em cima delas. 


S.
Quem visita um familiar que tá preso tem o sofrimento do lado de fora, a gente passa por uma revista muito pesada. Eu não bebo e eu não uso drogas, mas eu acho que por causa do meu jeito, da minha forma de vestir, e o preconceito com a minha cor também, eu ia para visita, e “ah, você tem alguma coisa”, “você tá carregando alguma coisa”, então eu tinha que chegar muito cedo para visitar, por conta das revistas. 

E eu fazia visitas para o meu irmão, que foi preso sem ter cometido nenhum crime. Ele estava saindo do serviço, cantando, assobiando, e uma mulher acusou ele, dizendo que “é aquele negrinho ali, de camisa vermelha” Ele pegou três anos de prisão. 

Aí você imagina, pagar advogado, minha mãe com mais de 80 anos…é complicado. E visitar é difícil, porque você precisa levar alimentos para a pessoa, e a gente não tinha dinheiro. Tínhamos que ir pedir para os vizinhos, se eles tinham os ingredientes para a gente poder cozinhar.

E meu irmão não era de fumar, mas pedia cigarro, porque muito do que ele comprava lá dentro da prisão era com o cigarro. Então você imagina, meu irmão nunca usou drogas, sempre trabalhou, sempre estudou, a gente vem de família honesta, do interior, nem conhecia São Paulo. 

E toda vez eu que ia ver meu irmão, mas…eu tinha que ser forte pela minha mãe também. Ela nunca entrou na cadeia, eu que ia, e pelo menos eu consegui poupar ela desse sofrimento. Não sei se ela aguentaria na idade dela.

Como uma mulher chama meu irmão de ladrão e ele vai preso? Se hoje dizem que a polícia é corrupta, imagina como era em 1982, quando ele foi preso. E é assim, “você é ladrão, cala a boca”, e foi a sorte que a minha irmã trabalhava na casa de uma advogado e ele foi visitar meu irmão.

Ele chegou antes de espancarem meu irmão, porque eles fazem o exame de corpo de delito e depois arrebentam a pessoa. Aí quando vamos visitar a pessoa está toda machucada, e eles argumentam que “o corpo de delito não acusou nada, ele que arrumou confusão”.

Eu ia com a sacola, com a comida, o cigarro, e a comida era simples, mas era o que ele gostava, ele esperava por isso a semana inteira, e a gente tinha que se virar aqui fora. É muito complicado.


L.
Saí da prisão vai fazer um mês, eu não tenho família, mas tenho essas pessoas da Pastoral e de outros coletivos que estão me ajudando, e só tenho a agradecer. Sou vulnerável, não tenho família ou condições, mas tenho um grande valor, do aprendizado.

Eu nunca pensei que ia ter o apoio de ninguém porque eu morava na rua. Quando saí da cadeia achei que iria voltar para a rua, e foi uma mobilização da Por nós, do Libertas, da Pastoral, que vem me dando um amparo material e com os cursos. Nunca achei que a sociedade pudesse olhar para o morador de rua, e fico muito feliz com isso. 

Meu próximos passo vai ser fazer meu currículo, com o certificado do meu primeiro curso, e procurar emprego. Quero ter a oportunidade de trabalhar honestamente e saber que eu venci.

M.
Sou sobrevivente do cárcere, em 2019 eu e mais 25 mulheres fundamos o coletivo Por nós, para amparar e fortalecer as mulheres que saíam do cárcere, para que elas não retornem mais para esse mundo. 

Senti essa necessidade de um amparo logo no segundo ano quando eu estava na prisão. O sistema feminino é muito agressivo. Muitas reclamavam que não tinham para onde ir, estavam preocupadas com seus filhos, e não queriam mais voltar para aquela situação, então desde lá de dentro tinha essa vontade. E essa vontade de acolher casou com a luta pelo desencarceramento.

O nosso coletivo realiza o acolhimento. fazemos rodas de conversa, coletamos cestas básicas para as familiares das egressas, e muitas vezes as meninas saem e não tem para onde ir. As meninas saem e ficam no meu apartamento por exemplo.

Também damos um direcionamento em questões como documentação, de saúde, para procurar emprego, estudar, para que elas não voltem para esse mundo do crime, sem futuro.
Com a pandemia tudo ficou mais difícil, mas é um trabalho de formiguinha.


A.
Sou uma sobrevivente do cárcere, e esse curso aqui foi muito importante. Mostra que realmente podem ter mudanças, se for dada a oportunidade. Eu ouvi muitas histórias, também contei a minha história, e foi muito importante, por mais que eu tente falar, não vou conseguir expressar tudo o que senti.

Sou fundadora do coletivo Mães do Cárcere. Hoje nós acolhemos egressas do sistema penitenciário, familiares de presos, mães, esposas, maridos, e também abri o leque para violações de direitos. Ajudamos 8700 mulheres em todo o estado de SP. Temos uma Assessoria Jurídica, convido muitas vezes advogados para explicar as leis para as pessoas, e fazemos o encaminhamento de denúncias para a defensoria pública, de SP ou da região. Também realizamos a distribuição e coleta de cestas básicas.

No início da pandemia também fizemos um trabalho de doação de fraldas, roupinhas de bebê para a penitenciária feminina de SP, levamos álcool gel para a porta do sistema prisional, porque tínhamos que achar uma forma de quem estava cuidando dos nossos, para não sermos contaminadas lá dentro.

*Os nomes foram suprimidos a pedido das entrevistadas
Publicado originalmente em: "Vozes marcadas pelo cárcere: as mulheres que lutam para sobreviver"



 

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