Opinião

Crianças e adolescentes | 26 Out 2021

Escolas precisam aprender a navegar em mundo pós-pandêmico

Com retorno às aulas presenciais, comunidade escolar vai precisar repensar práticas, e entender as necessidades subjetivas das crianças. Desafio é maior para ensino público
-Mãe eu preciso fazer as lições no computador?
-Mãe, eu não gosto de fazer as atividades on line
-A internet caiu!!!!!!!! Agora não vou conseguir postar as lições!
-Mãe, por que agora tenho que ir à escola?
-Mãe, hoje é meu dia de aula?

Acredito que essas foram —  e são — as perguntas mais ouvidas nos últimos tempos naquelas casas onde há crianças em idade escolar.
-Sim meu filho, enquanto as aulas não retornarem para a escola, as lições serão feitas no computador.

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-Isso não é exclusividade sua. Tenho certeza que seus amiguinhos e professores também concordam com o seu “não gostar”.
-Respira, aguarda a internet voltar e manda a lição.
-Meu bem, normal é ir à escola todo dia, anormal é deixar de ir.
-Meu filho, sabe que me perdi no calendário? Vou olhar.

Ouso dizer que as respostas também devem seguir nessa linha.

>>Os retrocessos na educação em tempos de pandemia

A pandemia, ao contrário do slogan que prega “um novo normal”, deveria ter nos ensinado um novo jeito de viver. A começar pelas novas maneiras de aprender e adquirir conhecimentos. As inovações tecnológicas demoraram muito para chegar às escolas, e estas demoraram a adaptar suas infraestruturas. Partindo do material e caminhando para o subjetivo da aprendizagem, não ressignificamos os conteúdos e as relações do cotidiano estudantil com a realidade da pandemia.

Parte dos prejuízos vividos no processo de ensino e aprendizagem, acredito eu, foram resultado da dificuldade em ampliar o entendimento do que significa “aprender”. A formação escolar que conhecemos antes da pandemia já era obsoleta, há muito não supria as necessidades de crianças, jovens e adolescentes. O letramento e a alfabetização devem incentivar o pensamento crítico e o desenvolvimento de habilidades que são fundamentais na formação dos indivíduos. Para isso acontecer, esse processo de aprendizagem precisa estar alinhado à realidade dos alunos.

Professores e alunos das redes de ensino estaduais e municipais precisaram usar toda sua imaginação e superar todos os limites impostos pela falta de estrutura escolar e pela maneira obsoleta de ensinar/aprender para entregar à comunidade escolar o mínimo esperado pela sociedade. As escolas particulares, nesse quesito, tiveram melhores condições de atender professores e alunos tanto nas adaptações de infraestrutura quanto no planejamento pedagógico e formação dos professores, ainda que tenham perdido muito financeiramente, por causa da queda no número de matrículas causada pela migração de muitos alunos para rede de ensino estadual e municipal. Reflexo da crise econômica, mas essa é outro assunto... Voltando aos bancos escolares .

Como ensinar geografia sem mapas? Como aprender história sem o globo terrestre? De que forma fazer operações matemáticas sem giz e lousa? Praticar educação física sem bola, tombos e desentendimentos na quadra?

Encontrar no universo virtual os recursos disponíveis e usá-los como ferramenta para facilitar o processo de ensino poderia ter sido uma estratégia vitoriosa se as estruturas escolares não estivessem tão arraigadas ao modo de ensinar e aprender do século passado. Comportamento esse fortemente ligado as gestões do ensino público. Mapas, globo terrestre, giz e lousa, deveriam ter cedido lugar a filmes de época, animes, séries e documentários, na tentativa de diminuir as distancias entre a realidade e o aprendizado. 

Há que se fazer uma distinção entre alunos das escolas públicas e alunos das escolas particulares, quando falamos das condições de aprendizado. As condições de ensino oferecidas pela rede de ensino público ficaram aquém da necessidade real dessas crianças, jovens e adolescentes em tempos de pandemia. A evasão escolar é uma realidade a ser encarada. Essas crianças, jovens e adolescentes enfrentaram problemas graves que afetaram diretamente sua forma de encarara e vivenciar o mundo e, consequentemente, de aprender.

O sucesso do retorno às aulas presenciais vai depender mais do que nunca do quanto as ações estarão ligadas ao acolhimento das questões subjetivas que envolvem esses. Porque os atravessamentos da pandemia vão influenciar diretamente no quanto esses alunos aprenderam e se aprenderão, seja por causa da falta de modernização das escolas e dos professores, seja pelas dificuldades de acesso a internet.

Um outro ponto importa: precisamos baixar as expectativas referentes ao ano letivo que ainda está em curso. Isso significa dizer que o velho boletim e as notas de 0 a 10 precisam ser ressignificados. Porque, ainda que haja uma prova de recuperação, ela está longe de refletir o que aquele aluno realmente aprendeu.

Urge entender que a pressão e a cobrança a respeito do desempenho e a performance desses alunos, aliado as expectativas de todos os envolvidos, não vão atingir as antigas expectativas de desempenho escolar, porque o contexto, a realidade é absolutamente contrária ao que estávamos acostumados. O resultado disso será o aumento do sofrimento de toda uma comunidade, principalmente dos alunos, porque há, ainda, uma negação de todas transformações que precisam ser imprimidas a realidade que a pandemia nos trouxe.

As gestões publicas, responsáveis pelas redes de ensino, precisam repensar os processos de ensino e aprendizagem, e o seu planejamento pedagógico, levando em consideração a realidade concreta dessas crianças, a necessidade de valorização de seus profissionais e principalmente encerrando um ciclo falacioso do “novo normal”, que repete formulas arcaicas e obsoletas de ensinar e aprender.
A pandemia nos trouxe uma nova forma de viver, inclusive para as escolas!
 
Foto de topo: Secretaria de Estado da Educação de São Paulo

 

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