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Feministas Rurais criam podcast para driblar distância na pandemia

Fala Mulher, produzido pelo Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste, relata experiências de participantes de formação feminista

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Feministas Rurais criam podcast para driblar distância na pandemia

Fala Mulher, produzido pelo Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste, relata experiências de participantes de formação feminista

Escrito em 01 de Fevereiro 2022 por
Rafael Ciscati

Foto: Encontro regional da Escola de Educadoras Feministas realizado em 2020. Com o avanço da pandemia, as atividades se tornaram virtuais ( MMTR-NE)

Quando o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste (MMTR-NE) foi criado, em meados dos anos 1980, era comum que as ativistas do grupo mandassem cartas umas para as outras. "Era assim que elas combinavam mobilizações e trocavam experiências ", conta Aline Carneiro, atual coordenadora administrativa e financeira do movimento.
 
Em tempos pré-internet, a informação circulava por escrito, no boca-a-boca ou pelo rádio — naquelas ocasiões em que o grupo conseguia espaço nas rádios comunitárias. A intenção era, de um jeito ou de outro, manter informadas as ativistas espalhadas pelos nove estados do nordeste, e permitir que elas se sentissem próximas, mesmo que fisicamente distantes. "O movimento chegou a cobrar a instalação de orelhões nas comunidades", lembra Aline, se referindo aos telefones públicos, relíquias quase desconhecidas de quem nasceu a partir dos anos 2000.
 
Em meados do ano passado, Aline se pegou pensando nessas antigas estratégias de comunicação. Desde 2015, o MMTR-NE reúne mulheres de todos os estados do nordeste para falar sobre feminismo. Ao longo dos sete módulos da Escola de Educadoras Feministas, o grupo discute temas que vão da agroecologia à sexualidade, passando por debates sobre economia e violência contra a mulher. O objetivo é municiá-las para que se emancipem e lutem por seus direitos. "Depois de participar da escola, a mulher — geralmente, uma liderança — se torna uma multiplicadora, e leva esses conhecimentos adiante". Em 2021, o projeto teve apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos, mesma organização que mantém Brasil de Direitos.
 
Costumeiramente, os encontros são presenciais.  No ano passado, a pandemia de covid-19  fez as aulas acontecerem pela internet. "Tudo correu bem, apesar das dificuldades enfrentadas por muitas mulheres para se conectar", conta Aline. Mas faltava algo. Faltava um jeito de permitir que aquelas mulheres compartilhassem o que tinham vivenciado e aprendido durante as discussões, de modo que se sentissem próximas mesmo  terminadas as atividades. Aline e as colegas se debruçaram sobre o passado do MMTR-NE para entender como suas antecessoras driblavam as distâncias. Voltaram de lá com uma ideia.
 
"Olá, mulherada! Espero que esse podcast encontre todas bem", diz ela, animada, logo no início do primeiro episódio do Fala Mulher. O podcast, uma produção em cinco capítulos, tem a energia de uma conversa informal. A cada boletim, uma participante da Escola de Educadoras Feministas fala sobre suas experiências durante o curso. Lançado no final de 2021, o programa retoma as vivências da Escola, informa sobre os planos futuros do movimento e homenageia (ou "femenageia", como Aline e as colegas preferem), feministas que marcaram a história da organização.
 
Na trilha sonora, soam composições das próprias integrantes do MMTR-NE: "Quem foi que disse que a mulher não participa da produção econômica do país?", questiona uma das músicas que embalam o boletim. "São canções que fazem parte da nossa história", diz Aline.
 
O mesmo se aplica ao nome do programa. Originalmente, Fala Mulher era como o MMTR-NE chamava o boletim que mantinha em rádios comunitárias no início dos anos 2000. A estratégia teve mais de uma encarnação, e contou inclusive com informativos escritos. Hoje, o programa circula por áudio de whatsapp. "Mesmo quando a internet não é estável, todas conseguimos usar o aplicativo de mensagens", conta Aline. "Optamos por não apostar em plataformas tradicionais, como o Spotify. Por que isso exigiria que as mulheres clicassem num link externo. íamos perder ouvintes".
 
Além de marcar o encerramento das atividades da escola feminista, os boletins têm a ambição de levar adiante as conversas sobre aquilo que o MMTR-NE chama de feminismo rural. "A espinha dorsal do nosso feminismo é a mesma: queremos construir um mundo com igualdade entre gêneros", explica Aline. A ideia, no entanto, é adequar as discussões à realidade de quem vive no campo, e tornar os conceitos mais acessíveis. "É muito comum a pessoa achar que feminismo é algo exclusivo das mulheres urbanas, brancas, que frequentaram o ensino superior", diz Aline. "Nós estamos no campo, mas lutamos pelos direitos das mulheres. A nossa mística é diferente".

Satisfeita, Aline conta que a recepção ao podcast foi positiva. A produção acabou entrando no bojo das comemorações pelos 35 anos do MMTR-NE, completados no ano passado. A raprovação foi tamanha que o grupo planeja uma segunda temporada. "Mas já chegou ao fim?", pergunta ela às ouvintes no último episódio. "O bom é que, para nós, todo fim é também um novo começo". 

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