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Enfrentamento ao racismo

Projeto Bayo, do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), vai sediar discussões sobre relações raciais e combate ao racismo

No Recife, projeto quer produzir narrativas antirracistas

Enfrentamento ao racismo

No Recife, projeto quer produzir narrativas antirracistas

Projeto Bayo, do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), vai sediar discussões sobre relações raciais e combate ao racismo

Escrito em 30 de Setembro 2019 por
Rafael Ciscati

Os idealizadores da Bayo: Waneska Viana, Mariana Paz e Eliel Silva (foto: arquivo pessoal)

por Rafael Ciscati

Na língua iorubá, Bayo (se pronuncia com ênfase na última letra), é um nome de mulher que significa “alegria encontrada”. Era mais ou menos essa a sensação que a psicóloga Mariana Paz experimentava nos dias que passava enfurnada na biblioteca do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop) , no Recife. Localizado numa área central da cidade, o Gajop discute temas relacionados à segurança pública e sistema carcerário . Sua biblioteca reúne obras sobre direitos humanos e teoria racial, escritas por autores diversos: da filósofa alemã Hannah Arendt ao presidente sul-africano Nelson Mandela, morto em 2013. 

>>O que é: racismo estrutural

Paz circulava pela biblioteca pelos idos de 2015, quando acabou deixando o Gajop para assumir outros rumos profissionais.  Retomou o trabalho na instituição no começo desse ano. E tomou um susto ao dar de cara com o espaço temporariamente inativo.

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Por iniciativa dela e de dois colegas seus, o Gajop conseguiu retomar as atividades da biblioteca. Dessa vez, além de garantir acesso aos livros e material audiovisual, a organização vai transformá-la em um centro de estudos e debates sobre questões raciais. O projeto, ainda em fase piloto, é encabeçado por Paz, pelo advogado Eliel Silva e pela socióloga Waneska Viana. Segundo os três, a “menina Bayo “, como o projeto foi batizado, é filha "de duas mães e de um tio um pouco mais novo”: "Recebeu esse nome justamente para remeter às alegrias que a gente encontra quando tem contato com a boa literatura “, diz Viana.

O objetivo de Bayo, segundo seus idealizadores, é contribuir para a produção de narrativas antirracistas. Trata-se daquelas, no caso do projeto, que valorizam as raízes culturais negras, frequentemente relegadas a lugar subalterno na história oficial. O ponto de partida do projeto são as reflexões da intelectual americana Angela Davis para a qual, “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”.  Segundo Viana, isso se traduz no combate às histórias contadas a partir de uma perspectiva única, europeia: “Queremos ser um ponto para a construção de novas histórias e de novos debates”, afirma.

>>"Guia" traz dicas para falar sobre direitos humanos

 Ao longo dos próximos seis meses, o Gajop vai sediar rodas de conversa e debates sobre negritude. Serão encontros sobre a solidão da mulher negra, masculinidade, maternagem e racismo estrutural. As conversas vão ser alimentadas pelo acervo já presente na biblioteca, e que deve ser ampliado: durante a cerimônia de lançamento do projeto, no último dia 26, a escritora e pesquisadora Inaldete Pinheiro doou 5 obras infantojuvenis de sua autoria à instituição. A biblioteca foi rebatizada em homenagem a ela. 

Segundo Eliel Silva, as discussões articuladas pelo Bayo são essenciais para o próprio trabalho do Gajop: ” Apesar de ser uma cidade predominantemente negra, são comuns casos de racismo no Recife”, afirma.  Questões referentes a raça e gênero perpassam todas as atividades desenvolvidas pela organização. Criado em 1981, o Gajop nasceu como um projeto idealizado por advogados interessados em oferecer formação jurídica popular, sobretudo relacionada ao direito à moradia. Com os anos, o escopo de trabalho mudou, para incluir discussões referentes às políticas de segurança, aos direitos das pessoas encarceradas e à atuação das polícias.

Hoje, entre suas muitas atividades, o grupo realiza formações com adolescente que cumpriram medidas socioeducativas. A ideia é que eles participem das discussões do novo projeto. Atualmente, lembra Silva, o perfil dos jovens que cumprem medidas socioeducativas guarda semelhanças com o da população encarcerada, com predominância de pessoas negras. Nas duas situações, é importante atentar para o componente racial, explicam os pesquisadores do Gajop: “Queremos contribuir para a formação desses jovens, mas não queremos que seja qualquer formação”, afirma Viana. “É preciso que eles se formem como sujeitos políticos”.

 As atividades serão abertas a toda a comunidade e devem ser divulgadas pelas redes sociais do Gajop. A ambição é de que reúnam pessoas com vivências e formações diversas: “Militantes, jovens, intelectuais. Quanto mais diverso, mais rico o debate”, resume Viana. 

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