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Povos indígenas

O avanço do garimpo e da violência na terra indígena Munduruku

Há mais de 30 anos, os Munduruku denunciam o garimpo ilegal. Na quarta-feira, criminosos incendiaram a casa de Maria Leusa Munduruku, liderança premiada pelo ONU

Povos indígenas

O avanço do garimpo e da violência na terra indígena Munduruku

Há mais de 30 anos, os Munduruku denunciam o garimpo ilegal. Na quarta-feira, criminosos incendiaram a casa de Maria Leusa Munduruku, liderança premiada pelo ONU

Escrito em 27 de Maio 2021 por
Rafael Ciscati

Garimpeiros ilegais incendiaram casas na Terra Indígena Munduruku, no município de Jacareacanga, sudoeste do Pará. Os ataques aconteceram nesta quarta-feira (26). Segundo relatos de lideranças indígenas, grupos de homens armados organizaram um  cerco à aldeia Fazenda Tapajós. A casa da líder indígena Maria Leusa Munduruku foi incendiada. Coordenadora da Associação Wakoborun de Mulheres Munduruku, Maria Leusa é ferrenha opositora do garimpo ilegal. Em março deste ano, a sede da Associação Wakoborun, em Jacareacanga, foi vandalizada, numa tentativa de intimidação.

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Segundo áudios enviados por Maria Leusa no início da tarde de ontem, um grupo de garimpeiros invadiu a aldeia portando armas e exibindo galões de gasolina. “Chegaram na minha casa, vão queimar tudo aqui. Eles chegaram aqui, um grupo muito grande. Aciona todo mundo, que estou aqui super preocupada", disse a liderança pelo WhatsApp, antes de o acesso à internet ser cortado. As informações são do Instituto Socioambiental (ISA).

De acordo com informações do jornal O Estado de S. Paulo, a onda de violência é uma retaliação à operação Mundurukânia, deflagrada pela Polícia Federal e pelo Ibama. Iniciada na terça-feira (25) a operação conta com apoio da Força Nacional e da Fundação Nacional do Índio, e pretende desarticular os garimpos ilegais em funcionamento nas Terras Indígenas (TIs) Munduruku e Sai Cinza.

Policiais federais ouvidos pelo jornal Folha de S.Paulo contam que o grupo de garimpeiros reunia cerca de 100 pessoas. Antes de atacar a aldeia, a turba avançou contra o posto da PF na cidade. Os policiais reagiram com bombas de gás lacrimogênio.

Na tarde de ontem, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) emitiu nota cobrando ação imediata do governo brasileiro contra a violência dos garimpeiros: “A #CIDH insta o Estado de #Brasil a apurar os fatos e sancionar os responsáveis com devida diligência, garantindo o enfoque étnico-racial nos procedimentos. Além disso, chama a enfrentar as causas subjacentes que resultam na falta de proteção dos territórios do povo Munduruku”, escreveu a entidade no Twitter.

A ação criminosa foi condenada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), que destacou a vulnerabilidade dos povos indígenas da região frente ao avanço do garimpo: “Mais uma vez, vidas indígenas estão ameaçadas pelo garimpo e por garimpeiros na Amazônia. A rotina de terror se repete também na TI Yanomami, em Roraima, sob ataque intenso desde o início do mês”. 

Avanço do garimpo na TI Munduruku
Localizada na margem direita do rio Tapajós, a TI Munduruku abriga cerca de 145 aldeias e 14 mil pessoas. Além dos Munduruku, vivem ali outros grupos de indígenas isolados. A TI é próxima de outras duas Terras Indígenas, também alvo do garimpo: as TI Sai Cinza e Kayabi.

Há pelo menos três décadas, os Munduruku denunciam a invasão de garimpeiros aos seus territórios. Segundo nota do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, técnicos da Fundação Nacional do Índio (Funai) registraram  a presença de um garimpo ilegal na região já no início dos anos 1990. O garimpo continua em atividade ainda hoje, apoiado por grupos empresariais e políticos.  Vídeos obtidos pelo MPF mostram que, além de armas, os criminosos contam com helicópteros e com maquinário pesado, como pás carregadeiras. Apesar das sucessivas denúncias, somente em 2018 foram organizadas operações de combate à garimpagem.

Mesmo assim o problema persistiu — e se agravou, em parte, com a anuência do poder público. Em agosto de 2020, uma ação de fiscalização iniciada pelo Ibama foi interrompida após uma visita do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, à região. No dia seguinte à visita de Salles, segundo o MPF, um grupo de sete garimpeiros foi transportado, num voo da Força Aérea Brasileira (FAB), de Jacareacanga até Brasília, onde teriam participado de reunião com o ministro. No grupo, estava o garimpeiro Adonias Kaba Munduruku, apontado como responsável pelo incêndio da casa de Maria Leusa Munduruku nesta quarta-feira.

Além da escalada de violência, o garimpo traz prejuízos à saudade da população indígena. O mercúrio, usado no processo de exploração mineral, contamina os rios e os peixes — base da dieta indígena. A terra arrasada deixada pelo garimpo faz aumentar a ocorrência de malária. Em meio à pandemia de covid-19, a circulação de garimpeiros ainda contribui para a disseminação do Sars-Cov-2 entre indígenas: em 2020, 31 Mundurukus morreram vítimas da doença.

Já em março deste ano, o Ministério Público Federal (MPF) pediu que forças federais atuassem na região de Jacareacanga, para conter as invasões. No dia 24 de maio, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF) definiu que o governo federal deve retirar os invasores das terras indígenas Yanomami (Roraima) e Munduruku (Pará).


Liderança ameaçada

Importante liderança Munduruku, Maria Leusa capitaneou a criação, em 2018, da Associação das Mulheres Munduruku Wakoborun. O nome faz referência a uma dos mitos de seu povo: a história da guerreira Wakoborun, notável por sua coragem. De saída, o objetivo da associação era se opôr aos projetos de hidrelétricas planejadas para a bacia do rio Tapajós.

Antes disso, em 2014, Maria Leusa fez parte do movimento que promoveu a auto-demarcação da Terra Indígena Sawré Muybu, outro território historicamente ocupado pelos Munduruku no Pará. Segundo reportagem da Agência Pública, o governo brasileiro planejava construir uma hidrelétrica na região e, por isso, resistia em prosseguir com a demarcação. Frente à morosidade do Estado, Maria Leusa e seus companheiros percorreram toda a área da Terra Indígena, demarcando seus limites conforme especificados em relatório da Funai.

Pela iniciativa, Maria Leusa foi premiada pela Organização das Nações Unidades (ONU) em Paris, em 2015, durante a Conferência das Partes (COP21). “Nós, Mundurku, estamos fazendo o caminho inverso ao feito pelos europeus há 500 anos, para dizer ao mundo que vamos resistir até o último homem contra a construção das hidrelétricas no rio Tapajós”, disse, na ocasião.

Durante todo esse tempo, Maria Leusa conta ter recebido ameaças à sua vida e de sua família. Elas se intensificaram nos último dois anos, conforme o conflito com os garimpeiros recrudesceu. Na última quarta-feira, sua casa foi incendiada pelos criminosos. 

Foto de topo: cada de liderança indígena é incendiada em Jacareacanga / Reprodução

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