Entrevista

Mulheres | 26 Jul 2021

Mulheres negras são principal agente de mudança no Brasil hoje, diz socióloga

Para Ana Carolina Lourenço, uma das organizadoras do livro A Radical Imaginação política das Mulheres Negras, ativistas negras vão definir os rumos da democracia brasileira em 2022
No início de 2020, quando a pandemia do novo coronavírus já assolava o Brasil, a socióloga Ana Carolina Lourenço decidiu entrevistar ativistas negras de todo o país, para saber como elas enxergavam o futuro. A pesquisa, batizada como Mulheres Negras Decidem para Onde Vamos, foi fruto de uma parceria entre o Instituto Marielle Franco e o Movimento Mulheres Negras Decidem — que Ana Carolina ajudou a fundar em 2018, e que estimula a participação de mulheres negras na política institucional. “Um dos grandes achados dessa pesquisa é a existência de uma linha que conecta os ativismos de mulheres negras de diferentes gerações”, diz ela nessa entrevista a Brasil de Direitos. “No relatório, a gente diz que há uma imaginação política que liga as mulheres negras no seu agir cotidiano”. 

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A pesquisa virou série de TV, exibida pelo Canal Brasil; e, mais recentemente, a imaginação política que o trabalho identificou tomou a forma de um livro. Recém-lançado, A Radical Imaginação Política das Mulheres Negras Brasileiras reúne textos de análise sobre a realidade do país. Alguns inéditos, outros já clássicos, e que foram primeiro divulgados como discursos ou projetos de lei. Todos foram escritos por mulheres negras cujas trajetórias acompanharam o surgimento e a consolidação da democracia no Brasil.

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Segundo Ana Carolina, nos últimos anos, o Brasil assistiu à emergência de um novo protagonismo das mulheres negras na política institucional. Trata-se de um movimento encabeçado por mulheres jovens, muitas delas com formação universitária, e que enxergam na disputa eleitoral uma forma essencial de fazer política. São nomes, além disso, enraizados nos movimentos sociais. Ao mesmo tempo em que é novo, esse protagonismo é uma continuidade, conta Ana: “O livro recupera memórias para dizer que algo novo está acontecendo, mas essa novidade foi alimentada por gerações de mulheres negras que constroem a república brasileira desde seus primórdios”. 

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Para ela, a discussão sobre a presença de mulheres negras na política caminha para ocupar o centro do debate eleitoral brasileiro. “É preciso dar o tamanho exato do protagonismo que esse grupo tem para que ocorra um giro democrático em 2022. Parte da virada que elegeu Joe Biden nos EUA envolveu uma virada narrativa conduzida por mulheres negras estrategistas eleitorais, que vincularam a urna com as ruas”, avalia. “Hoje, as mulheres negras são as principais agentes de mudanças”.  


Brasil de Direitos: No livro, há textos inéditos, reproduções de discursos e projetos de lei. Como surgiu a ideia de reunir esse conjunto tão diverso?
Ana Carolina Lourenço: Existia uma sensação, que marca a geração do feminismo negro que eu construo, de que nós não inauguramos esse debate — as mulheres negras participaram dos debates em torno da política institucional desde os primeiros anos da república. As mulheres negras participaram das lutas pelo sufrágio universal, estiveram nas construções da redemocratização. Eu sou do Rio de Janeiro, cidade que, na década de 1980, foi palco de duas campanhas icônicas de mulheres negras: de Lélia Gonzalez e Benedita da Silva. Essas eram referências muito marcantes, e havia outras. Mas esse conhecimento estava muito disperso. Quisemos compor um livro curto, voltado especialmente para mulheres negras que estão se aproximando da política institucional, e que refizesse essa trajetória. De modo a mostrar que esse debate, que está ganhando relevância para ocupar o centro da arena pública, vem de uma longa tradição. 

Ao longo do livro, vocês falam sobre a emergência de um novo protagonismo das mulheres negras na política. Qual o perfil dessas novas protagonistas?
Ao mesmo tempo em que é novo, esse protagonismo é também uma continuidade. O livro recupera memórias para dizer que algo novo está acontecendo, mas essa novidade foi alimentada por gerações de mulheres negras que constroem a república brasileira desde seus primórdios. Mas existem diferenças entre as experiências protagonizadas na década de 1980 e as de hoje. No livro, incluímos um fragmento da carta escrita durante a Marcha Nacional de Mulheres Negras de 2015 que ajuda a explicar essa história. Muita gente conta a história do movimento de mulheres negras antes e depois de 2015. A Marcha aconteceu no final do governo [da presidenta] Dilma Rousseff, em meio a uma série de tensões. A Marcha reuniu mais de 50 mil mulheres negras, e a carta produzida durante o evento fala sobre a disputa pelos espaços de decisão e de representação política. A Marcha marca o distanciamento entre o movimento de mulheres negras e o governo. A mensagem era: não dá mais para continuar no governo, as nossas agendas estão sendo negociadas. O que fazer a seguir? A resposta para essa questão surge em 2016, com a eleição de nomes como Marielle Franco, Áurea Carolina e Talíria Petrone. São mulheres que têm uma maneira de fazer política muito diferente. Suas campanhas falam de gênero, raça e, em alguns casos, de orientação sexual. Falam sobre agendas de classe, de moradia e favela. E são campanhas construídas junto dos movimentos sociais e das mulheres negras. Surge um ativismos de mulheres negras jovens, ligadas ao ciberativismo e que ocupam espaços universitários. Essas candidatas se tornam campeãs de votos. E daí surge um fator acelerador trágico que foi o assassinato da Marielle. 

O assassinato da Marielle mudou o cenário político?
Os movimentos de mulheres negras protagonizaram imensos protestos depois do assassinato. Conseguimos consolidar o entendimento de que esse foi um dos maiores assassinatos políticos das Américas no século XXI. E, a partir dele, os movimentos sociais conseguem propor uma resposta. A lógica é: Marielle foi morta porque somos poucas. A resposta que o Brasil deve dar a esse assassinato é a eleição de mais mulheres negras. Cria-se uma urgência em torno dessa pauta.

Uma marca dessa nova geração é o seu enraizamento nos movimentos sociais?
Existe uma série de estudos que tenta entender de onde vem o capital político de mulheres, e das mulheres negras em especial. Grande parte das mulheres eleitas vem de famílias de políticos. Há um capital baseado no “maridismo” — mulheres de políticos se candidatam e são eleitas. Isso não acontece com as mulheres negras. No caso delas, a gente consegue arriscar que seu capital político vem dos movimentos sociais. Elas constroem agendas de defesa dos direitos humanos desde a base. Nessa nova geração de protagonistas, as candidaturas são construídas com os movimentos de mulheres negras. E esses movimentos, muitas vezes, entregam suas lideranças para a política institucional. São pessoas que têm grande capilaridade nas suas comunidades e que decidem disputar o jogo eleitoral. Essa é outra marca: a crença na disputa política pela via eleitoral. 

Há pautas comuns entre as protagonistas desses diferentes momentos?
Há uma série de diálogos entre as gerações, que são estabelecidos porque essas mulheres se leram, e tiveram suas imaginações influenciadas pelo fazer político umas das outras. O livro é dividido em duas partes. A primeira é escrita sobretudo por mulheres negras jovens que constroem hoje os movimentos sociais e que olham para grandes temas como saúde, e a participação das mulheres negras na política institucional. A segunda parte traz documentos históricos. Ela abre com o texto Racismo por Omissão, de Lélia Gonzalez. É o texto que marca a desfiliação de Lélia do Partido dos Trabalhadores (PT), e que fala sobre ausências. Sobre a dificuldade de estabelecer um debate de gênero, sobre a presença de mulheres negras na política e no sistema partidário. E o livro termina com um projeto de lei de novembro de 2020, de autoria de Áurea Carolina e Taliria Petrone, que versa sobre violência e assédio político. São textos de épocas diferentes, mas ambos são interpretações do processo eleitoral.  O  texto de Lélia interpreta as primeiras eleições diretas no Brasil e fala sobre violência partidária. Já o projeto de lei é resultado das experiências que atravessaram Áurea e Talíria nas eleições de 2020. A violência partidária aparece no início e no fim das experiências das mulheres negras desde a redemocratização. 

Nas últimas eleições, o número de mulheres negras eleitas cresceu mais de 23%, algo muito comemorado na época. Ainda assim, elas continuam sub-representadas na política. Como você interpreta os números do último pleito? 
As eleições municipais no Brasil são processos de transformação lenta. Elas estão entre as maiores do mundo, têm muito dinheiro envolvido e regras muito estruturadas. Nesse contexto, os movimentos sociais ainda têm baixa capacidade de incidência. Desse ponto de vista, os resultados foram muito positivos. Mulheres negras estão vivendo um movimento de crescimento de sua representação na política, de maneira seguida. Mas isso acontece num cenário de lenta transformação. Se continuar assim, vamos demorar 100 anos para nos aproximarmos de países que têm melhores indicadores de bem estar social e de representação politica. Se seguir nesse ritmo, ficaremos na lanterninha. Do ponto de vista narrativo, foi a maior vitória da história em torno do tema de raça e eleições. Em 2020, os movimentos sociais colocaram as cortes superiores do país para discutir raça e eleições. Isso aconteceu por causa da consulta da deputada Benedita da Silva ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que questionou a corte sobre as verbas destinadas pelos partidos para candidatos e candidatas negros e negras. E os grandes jornais brasileiros, em parte por esse movimento, em parte pela consolidação dessa agenda, cobriram as eleições considerando a chave raça. Criou-se uma ideia de que é importante monitorar isso. A grande vitória foi que o debate não se encerrou em 2020. Estamos falando disso ainda agora. Lançando livro. Estabelecendo diálogos com as principais candidaturas à presidência. Ao que tudo indica, o tema tem tudo para protagonizar parte do debate eleitoral em 2022. 

Como ampliar a participação das mulheres negras na política institucional?
Primeiro, é preciso mudar a maneira como a imprensa fala sobre eleições. É importante que se faça algo para além do retrato imediato. É preciso perguntar para os partidos onde estão suas candidaturas de mulheres negras. A sociedade civil deve cobrar os mecanismos existentes para garantir que as candidaturas de mulheres não sejam fantasmas. Os movimentos sociais e as organizações de direitos humanos têm a missão de assumir o verdadeiro tamanho que essa agenda tem. As mulheres negras , de uma maneira geral, são o principal eleitorado da esquerda brasileira. É preciso dar o tamanho exato do protagonismo que esse grupo tem para que ocorra um giro democrático em 2022. Seguindo experiências de outros países. Parte da virada que elegeu Joe Biden nos EUA envolveu uma virada narrativa conduzida por mulheres negras estrategistas eleitorais, que vincularam a urna com as ruas. 

Qual será o papel dos movimentos de mulheres negras em 2022?
Há mais de um papel. Um deles é essa entrega dos seus melhores quadros. Eu espero que os principais partidos do Brasil tenham, nas suas relações de candidatos para os parlamentos estaduais e para o Congresso Nacional, nomes  de lideranças de mulheres negras capazes de conectar a agenda desses partidos à agenda da população que foi mais afetada pelos efeitos da crise. Existe um papel ético que essas mulheres negras podem assumir, para recobrar a crença na politica, para conectar parte de suas comunidades com uma agenda de esperança. O outro papel é um papel de engajamento cívico-eleitoral. Sou da Baixada Fluminense, um território que até pouco tempo atrás votava nas esquerdas, mas que nas últimas eleições se voltou para o Bolsonaro. As mulheres negras nesses territórios são uma barreira contra o avanço do bolsonarismo. Como os principais estudos mostram, essas mulheres votaram contra o projeto bolsonarista. Talvez seus companheiros, seus maridos, seus filhos, não tenham votado. Hoje, essas mulheres são as principais agentes de mudança porque elas são muito próximas desses celeiros onde a derrota do bolsonarismo precisa da conversão desses votos. E elas sabem o que significou o projeto bolsonarista. Elas sentiram as perdas, o empobrecimento, a fome. Elas são capazes de transformar esse voto porque estão lá. 

 

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