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Políticas Públicas | 22 Ago 2021

Mapa evidencia distância entre negros e brancos em Belo Horizonte

Mapa das Desigualdades da Grande BH incorpora questões como raça e gênero à discussão sobre planejamento urbano
Durante quase toda a vida, a  jornalista e educadora popular Luana Costa conta que viveu numa espécie de tríplice fronteira: o bairro de Venda Nova, na interseção das cidades de Belo Horizonte, Vespasiano e Ribeirão das Neves, em Minas Gerais. Distante uma hora de carro do centro de BH, a vizinhança lembra outras tantas periferias urbanas brasileiras: em Venda Nova, faltam transporte público, equipamentos de cultura e espaços de lazer. Ir ao centro de Belo Horizonte, no vocabulário de quem vive por lá, equivale a “ir à cidade”. “Eu cresci numa região apartada de Belo Horizonte. Porque essa é uma cidade que foi moldada para expulsar pessoas como eu”, afirma Luana que, como a maioria de seus vizinhos, é negra.

Se a vida em Venda Nova pudesse ser resumida a um punhado de números, quatro indicadores seriam inescapáveis: o bairro está entre as vizinhanças de Belo Horizonte que tem maior proporção de população negra (entre 67% e 100%). Desse conjunto, quase metade é de mulheres negras. A renda da maior parte dos moradores é baixa: chega a, no máximo, 2 salários mínimos. Os números contrastam, por exemplo, com aqueles do bairro Belvedere: uma região central e predominantemente branca da cidade, onde a renda dos moradores gira em torno de 11 salários mínimos.

A distância social que separa Venda Nova de Belvedere é um dos dados que constam no Mapa das Desigualdades da Grande Belo Horizonte. A pesquisa, encabeçada pela ONG Nossa BH  — de que Luana faz parte — é fruto de um esforço colaborativo empreendidos por organizações e movimentos sociais atuantes na capital mineira. Mostra, para cada bairro de BH e para 14 municípios da região metropolitana, indicadores como renda média, proporção da população negra e a frequência média de circulação dos ônibus. As informações revelam uma cidade fraturada: nos bairros centrais, a população é mais rica e mais branca. Conforme a distância do centro aumenta, a renda diminui e o número de pessoas pretas e pardas dispara.

>>Acesse o Mapa

“Essas eram desigualdades já conhecidas. Mas, quando a gente cartografa, elas ficam ainda mais escancaradas”, afirma o economista André Veloso, também membro da Nossa BH e que, juntamente com Luana, participou da elaboração do estudo.

Os números impressionam. Enquanto no Sion, uma vizinhança abastada no centro do sul da cidade, somente 1% da população se declare preta, em São Francisco das Chagas, na periferia, a população preta representa 45% dos habitantes. No já citado Belvedere, a renda média é quase 39 vezes a renda da população do bairro mais pobre, Vila Real II

A ideia de criar o mapa, contam os pesquisadores, surgiu ainda em 2020. A iniciativa segue os passos de trabalhos semelhantes, que já fazem o mesmo em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Uma das grandes preocupações da equipe era a de trazer para o debate questões que frequentemente passam ao largo quando o assunto é planejamento urbano. Como raça e gênero.

Os dois pontos, defendem, ajudam a entender como BH se desenvolveu, e como precisa mudar. “A cidade foi desenhada de modo a expulsar as pessoas pretas das regiões centrais”, diz Luana. “Se os bairros nobres são quase exclusivamente brancos, os bairros ao redor são predominantemente negros”.

Fundada em 1897, Belo Horizonte foi originalmente pensada para funcionar dentro dos limites da Avenida do Contorno, uma via movimentada e que circunda a região central e os bairros mais afluentes do município.  O primeiro bairro a se formar fora desses limites, Lagoinha, surgiu para abrigar os trabalhadores encarregados da construção da cidade. Eram, na maioria, migrantes e negros. “Houve uma sobreposição de dois processos: de um lado, houve o apagamento da história negra em BH”, diz André. “De outro, essa população foi sendo afastada, aos poucos, da região central”.

Além de evidenciar as iniquidades raciais da cidade, o Mapa tem a ambição de servir como uma espécie de bússola para orientar o desenho de políticas públicas.

O levantamento sugere, por exemplo, que é preciso repensar o itinerário e a frequência dos ônibus que circulam na cidade. Hoje, o usuário típico do transporte público em Belo Horizonte é uma mulher negra, pobre, com mais de 40 anos. São pessoas que fazem pequenos deslocamentos ao longo do dia, circulando entre casa, escola dos filhos e trabalho. Trajetos diferentes dos percorridos pela média dos homens, que fazem deslocamentos mais longos, de casa ao trabalho, e para os quais a malha do transporte público foi pensada. “As mulheres negras são as pessoas que mais precisam desses serviços”, diz Luana. “Mas o sistema não foi organizado para atender às necessidades delas”.

O Nossa BH pretende lançar uma nova edição do Mapa até 2022. A atual usa, como uma de suas principais fontes de informação, dados do Censo Demográfico de 2010. A intenção é atualizar o levantamento a partir de informações do Censo de 2021 — que deveria ter sido realizado em 2020, mas acabou adiado em virtude da pandemia de Covid-19 e de cortes orçamentários promovidos pelo governo federal.

Existe o temor de que os indicadores de renda tenham piorado ao longo dos últimos dez anos, e que a nova edição do Mapa fotografe essa deterioração. Ainda assim, Luana tem esperanças de que, na última década, diminui a distância entre negros e brancos na cidade. “Desde então, a gente colheu os resultados de ações afirmativas que facilitaram o acesso ao ensino superior. Além disso, a população negra se organizou cada vez mais, para ter orgulho de si e cobrar seu espaço”.
 

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